Era o período chamado de anos de chumbo.
Alguns jovens que residiam na cidade do
Recife, criaram um grupo musical que no início se chamou Tamarineira Vilage,
mas segundo alguns relatos, por sugestão mística, mudaram para Ave Sangria.
Aqueles rapazes tinham um sonho, algo natural que deve mover o ser humano.
Naquela época as dificuldades eram imensas para alguém conseguir gravar um
disco. Diferente de hoje, que até os que não são providos de qualidade musical,
se arriscam fazer e ainda tem quem curta. Na verdade, são filhos da indústria
cultural. Algo que a época o Ave Sangria já se posicionava de maneira
antagônica.
Com o disco gravado e distribuído nas
lojas para sua vendagem, tudo parecia que daria certo e o sucesso era questão
de tempo. Ledo engano, aqueles que estavam prestando desserviço ao país,
recolheram das lojas o trabalho burilado do Ave Sangria. A alegria do disco
gravado, agora se tornara em tristeza e todos os sonhos depositados a partir
daquele trabalho, estavam aparentemente destruídos.
Entre algumas coisas positivas da
tecnologia, encontramos a facilidade de divulgação do que queremos pelas chamadas
redes sociais. E assim, surgiu uma comunidade no antigo Orkut, prioritariamente
de jovens que descobriram e admiravam o maior grupo psicodélico de Pernambuco e
quiçá do Brasil. Assim, estava decretado o retorno do Ave Sangria aos palcos,
depois de 45 anos. Como exemplo de resistência, o grupo voltou com força e com
uma nova geração de fãs que se unem aos antigos. Infelizmente, Agrício, Israel,
Ivinho e Paulo Rafael não se encontram mais entre nós. Da formação original,
permanece Almir de Oliveira e Marco Polo, acompanhados por novos integrantes
que sabem da responsabilidade que carregam em prosseguirem com o legado deixado
pelos os que já se foram. Felizmente, o Ave Sangria continua voando, encantando
e sendo reconhecido. Tanto é, que a mais recente homenagem veio da Câmara de
Vereadores da Cidade do Recife, em comemoração aos 50 anos de resistência e de
contribuição ao cenário musical brasileiro.
Parabéns, Ave Sangria!
Olinda, 27 de maio de 2023.
Sem ódio e sem medo.
Hely Ferreira é cientista
político e músico.
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